O que se move dentro das paredes (parte 5)

Publicação: 29 de junho de 2010

Na manhã seguinte, Cris foi acordada por uma campainha que logo foi interrompida e substituída pela voz de Victor. Ele parecia aborrecido. Resmungou uma ou duas coisas e desligou o celular. Apertou os botões e fez outra ligação. Dessa vez ele desceu as escadas e Cris voltou a dormir pelo que pareciam ser apenas dois segundos. Isso se provou falso quando ele a acordou de banho tomado e arrumado para o hospital.

– Cris. – Ele a sacudia devagar. – Cris, você ta acordada?

Ela assentiu sem muito movimento, seu corpo inteiro parecia pesado.

– Meu amor, escuta. O quadro de uma paciente piorou muito durante a noite passada. Eles tentaram resolver sem mim lá, mas agora eu não posso mais fugir. Você vai ficar bem sozinha?

Dessa vez ela conseguiu pronunciar um sim bem sonolento e tentou se erguer da cama com grande esforço. Logo foi desencorajada por ele.

– Não precisa levantar por causa disso. Eu liguei pra Gisele e falei que você não passou bem a noite e não vai ao consultório. Pode ficar descansando aí, ouviu?

Ele sorriu e ela respondeu. Por um momento, Victor pareceu quase envergonhado o que estava para fazer. Tinha os comprimidos em uma das mãos e um copo com água na outra. Dessa vez ela se ergueu da cama e tomou suas pílulas.

Um beijo na testa e saiu para o trabalho. Cris continuou recostada tentando lembrar dos últimos dias. Refazia mentalmente seus passos, mas o sono a arras tava de volta toda a vez. Esticou o braço para a mesa de cabeceira e pegou o controle remoto. Pôs em um canal de música e o volume no máximo. Isso daria um jeito de acordá-la. E foi até bem eficiente. Lembrava-se dos últimos dias com clareza. E principalmente lembrava-se dos remédios. Dois comprimidos, duas vezes o dia. Sua dose de sempre.

Se recordava de abrir o frasco e até do sabor levemente amargo antes de engolir. Podia dizer o que estava fazendo quando tomou cada um deles pelo menos pela última semana. Mas quando virava a cabeça para o lado, lá estava. O frasco cheio. O frasco que deveria ser substituídos em dois ou três ias no máximo. Mas ali estava ele, com comprimidos para pelo menos duas semanas.

Logo a música não era suficiente.  Desligou a TV e desceu para tomar café. Parou na entrada da cozinha por um momento e entrou. Para provar para si que tudo estava bem, tomaria seu café ali mesmo. Sentou-se em uma das cadeiras com uma xícara de café bem doce. Pensava no que faria para ocupar sua mente enquanto estava sozinha em casa. Arrumaria, pensou. Olhando suas mãos enroladas em gaze, imaginou que seria melhor arrumar bem lentamente e sorriu. Uma pancada familiar soou no andar de cima. Cristiane resolver que seria melhor ignorar e continuar pensando em seu dia.

Arrumaria só à tarde. Pela manhã leria um livro.

Outra pancada.

Tinha vários livros na estante que queria ler. Escolheria um deles e começaria hoje.

Um gorgolejar baixo vinha do andar de cima.

Talvez lesse um romance.

O barulho aumentava.

Ou então um suspense policial.

Agora o barulho parecia descer direto do teto para a cozinha.

Poderia também ver um filme. Sim, um filme seria tão bom quanto um livro. Tinha o dia livre, veria até dois.

O barulho grave se tornou um guincho cada vez mais agudo vindo da pia logo ao seu lado.

Cristiane decidiu que ignorar o que estava acontecendo era muito mais trabalhoso do que simplesmente aceitar. Mais doloroso também, ela apertava a xícara entre as mãos trêmulas pressionando os cortes do dia anterior. Achava que alguns estavam até abrindo e voltariam a sangrar. Com o canto dos olhos via algo se mover saindo da pia e se arrastando pelo mármore. Como ignorar isso?

Respirou fundo e tentou tomar seu café. Mas era impossível levantar a xícara sem derramar. Aquilo continuava se arrastando sem nenhuma pressa. Cristiane apertou os olhos e respirou fundo. Abriu os olhos apenas para ver que aquilo chegava quase ao final do mármore da pia. O guincho agudo só piorava. Foi então que Cristiane não agüentou mais. Levantou-se tão rápido que a cadeira caiu no chão e se atirou na direção da pia.

O tentáculo pegajoso se ergueu expondo as ventosas escuras na parte de baixo. Cambaleou por um momento no ar antes de investir contra ela. Cristiane já havia pensado no que faria tirou uma das facas grandes do suporte de madeira sobre a pia. De um golpe só enquanto a criatura atacava, ela conseguiu arrancar um pedaço de cerca de trinta centímetros. Esse pedaço caiu no chão e se contorceu por alguns segundos antes de para completamente. Ela não pode dar muita atenção a isso, estava ocupada com a parte que permanecia viva. Movia-se loucamente enquanto tentava voltar para dentro do ralo. Cristiane tentava feri-la ao máximo enquanto ainda fosse possível. Quando a criatura finalmente conseguiu voltar para dentro do ralo, deixou para trás uma quantidade considerável da mesma gosma escura que Cristiane viu no arame da última vez. Quando ela achou que tinha matado a coisa. Não cometeria o mesmo erro dessa vez.

Jogou a faca no chão e saiu de casa para o quintal dos fundos. No canto do muro, quase escondida para não atrapalhar toda a estética do jardim, havia uma grande caixa de madeira onde eram guardadas ferramentas. Abriu a tampa com força e procurou por algo pesado. Encontrou um martelo. Era mais pesado do que parecia. Bom, assim ele faria o estrago necessário.

Entrou em casa e voltou à cozinha para pegar a faca que começou o estrago que pretendia terminar. Por um momento ela parou e tentou ouvir. Havia apenas um ronco baixo que ela não conseguia dizer de onde vinha. Parecia vir de toda a parte. De todas as paredes a cercando. Ela procurava fazer o máximo de silêncio. Foi então que finalmente ouviu. O som se movia lentamente para o andar de cima. Até mesmo o barulho que aquilo fazia era pegajoso e se arrastava. Ela apertou as mãos contra os cabos da faca e do martelo. A dor aplacou o enjôo causado pelo som.

Subiu as escadas correndo. O som vinha do banheiro dentro de seu quarto.  Entrou no banheiro e logo levou as mãos à parede. Podia sentir a vibração do som da criatura. Sem titubear, Cristiane colocou o facão na beirada da pia. Segurou o cabo do martelo com as duas mãos. O levantou sobre um dos ombros e colocou toda a força que podia no golpe. Depois em outro, e mais outro. Cada uma das marteladas era acompanhada por um grito dela. Não só pela força impressa no golpe, mas pelos ferimentos nas mãos. Se antes ela achava que eles estavam abrindo novamente, agora ela tinha certeza. A cada golpe, as manchas vermelhas no curativo aumentavam em tamanho e número.

Cristiane se apoiava na parede com a mão esquerda enquanto a direita prosseguia martelando. Foi então que as batidas começaram a vir também de dentro para fora. Cristiane parou por um momento. As paredes tremiam e pedaços já quebrados de azulejos caiam no chão. Ela sorriu. Então a criatura do outro lado também queria encontrá-la?

Voltou a bater com mais força. Apertava o cabo do martelo que deslizava cada vez mais pelo sangue. E isso só fazia com que seus dedos sangrassem mais. Finalmente o cimento cedeu e um buraco foi aberto. Bateu nas bordas até que houvesse um espaço grande o suficiente para que ela colocasse a cabeça dentro da parede. Mas o plano não era esse.

Quando ia bater mais uma vez, algo apareceu do outro lado. A princípio, era como uma sombra. Mas a superfície das sombras não eram brilhantes ou pegajosas. Cristiane deixou o martelo escapar e cair no chão. Aquilo se movia mais rápido do que das outras vezes. Talvez por que ali tivesse mais espaço. Parou de subir pela parede. Apenas ficou ali, pulsando lentamente como se respirasse.

Cristiane estava imobilizada. Esperava tentáculos que ela cortaria e atacaria até que um dos dois morresse. Mas nada a preparou para o que se seguiu. A pele escamosa se abriu revelando uma boca circular cercada de dentes, pequenos e afiados. Dali saiu o guincho insuportavelmente agudo que a assombrou nos últimos dias.

Agiu rapidamente sem pensar. Correu em direção a pia e pegou a faca. Sem perceber o que fazia, seu braço sumiu até a altura do cotovelo dentro da boca da criatura. Os dentes furaram a sua pele. Ela soltou um grito baixo, mais de surpresa do que de dor. A mão ainda segurava o cabo da faca que ela agitava cegamente dentro do corpo pegajoso. Sentia a lâmina sendo forçada contra a carne e abrindo caminho. Movia o braço cada vez mais longe para causar o máximo de dano possível, sem se importar com os dentes entrando cada vez mais no seu braço.

Um pensamento ameaçou a encher de pânico. Se aquilo resolvesse arrancar o braço dela, provavelmente conseguiria. E ela morreria sangrando miseravelmente no chão do banheiro. Mas levaria consigo aquilo que agora estava sangrando miseravelmente dentro da parede.

Continuava mordendo seu braço, mas agora mais fraco. Isso significava que ela talvez tivesse uma chance.  Essa constatação renovou suas forças e investiu com vontade contra a criatura no que ela esperava ser seu último golpe. Cris empurrou o braço até a altura do ombro e pressionou a faca contra a carne até que a atravessasse e a ponta da faca atingisse o cimento. De uma vez só, ela puxou o braço para fora sem tirar a ponta da faca da parede. Sob o grito da criatura, ela podia ouvir o som molhado da pele se rasgando e separando enquanto Cris dividia parte dela em dois.

O impulso que ela deu foi forte o suficiente para que caísse para trás quando sua mão estava finalmente livre. Caiu deitada no chão largando a faca que foi atirada para o outro lado do banheiro. Cristiane levantou a cabeça. E viu um rastro da substância escura escorrendo pela parede. A mesma substância que cobria seu braço e a faca. Os guinchos diminuíam até se tornarem murmúrios de algo seriamente ferido.

Deitou a cabeça de volta no chão e sorriu debilmente. Sentia os olhos pesados e o corpo todo doía do esforço. Sentia sua consciência escapando aos poucos. Talvez fosse apenas cansaço. Talvez tivesse sido envenenada, afinal as marcas de dentes estavam lá no seu braço. E sua mão estava coberta de cortes abertos. Fosse o que fosse, ela não lutava contra. Deixou-se perder os sentidos aos poucos até que ouviu outro som familiar que impediu que desmaiasse de vez. O som vinha do andar de baixo. A porta se abrindo e a voz de Vítor chamando:

– Cris, você está aí?

Em breve, parte 6 (final)



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