O que se move dentro das paredes (parte 4)

Publicação: 25 de junho de 2010

Gisele e o marido, Gustavo chegaram a tarde para ajudar na preparação do churrasco.

As duas ficaram na cozinha preparando algumas poucas coisas, falando muito e acabando com uma garrafa de vinho. Eles ficaram na churrasqueira a beira da piscina.

– O que aconteceu, cara? – perguntou Gustavo. – Você tá muito quieto.

Vítor suspirou.

– Eu to meio preocupado com a Cris.

Gustavo olhou para dentro de casa, de onde vinham as risadas das duas e não entendeu com o que se preocupava Vítor.

– Ela parece bem. Gisele me disse que ela andava meio estranha por esses dias, mas hoje ela parece muito normal.

– Eu sei. – Vítor concordou desanimado – Foi exatamente isso que aconteceu. Ela melhorou assim de repente.

– E isso não é bom?

– Para ela? Não necessariamente. – Vítor revelou em um tom sombrio.

Gustavo estava confuso com aquilo. Vítor parecia triste e precisando tirar algo de dentro do peito. Foi exatamente isso que ele fez.

– A Gisele já te contou algo sobre a Cris? – Gustavo fez que não com a cabeça.

Vítor parecia um tanto culpado por estar falando sobre isso, mas precisava prosseguir.

– Quando era criança, os pais dela tinham um sítio. Ela estava com uns dez anos e brincando pelo sítio quando caiu num buraco e ficou lá por quatro horas até que a encontrassem.

O queixo de Gustavo caiu:

– Por que ela não gritou? Ela desmaiou?

– Não. – Vítor falou – Sabe, aquele lugar onde ele caiu, estava infestado de centopéias de jardim e cobras do mato. – A expressão de Gustavo era de terror. – Ela ficou paralisada com medo de todos aqueles bichos e não conseguiu gritar. Ficou imóvel, acordada, ali por quatro horas. Quando finalmente a acharam, ela estava coberta de insetos. Depois disso fiou dois dias sem falar por causa do choque.

Gustavo permanecia chocado com toda aquela história sobre Cristiane. Ela parecia sempre tão normal, ele nunca adivinharia

– Então vieram os pesadelos. Ela acordava de madrugada gritando para que tirassem as cobras do quarto dela. Os pais não sabiam mais o que fazer. Quase todas as noites isso acontecia.

Vítor respirou fundo como se preparasse algo pior para dizer:

– Ela começou a vê-los enquanto acordada também. Estava bem em um momento, e no seguinte estava rolando no chão e gritando. Ela passou por anos de terapia e toma remédios até hoje. Os médicos disseram que o incidente no sítio desencadeou um problema emocional que ela já possuía.

– E ela… – Gustavo tentou escolher as palavras com cuidado.  – Ainda vê coisas?

– Raramente. Às vezes ela tem crises, que ela consegue controlar sozinha. Mas só acontece mesmo quando ela deixa de tomar o remédio.

– Ela deixou?

– Eu não sei. – Vítor parecia desolado. – Parece que sim. Sabe, às vezes ela se irrita com o fato de ter que tomar esses remédios e para. Ela acha que isso não é uma vida normal, a base de remédios e para. Fica um bom tempo sem eles até. E então tudo volta. Aí ela se convence de que deve continuar, mas ela volta para eles arrasada. Achando que falhou em algo.

Nesse momento elas saíram da casa. Rindo e conversando como sempre faziam. As duas estavam bem. Felizes. Nada fora do comum com nenhuma delas. A não ser os seres rastejantes que habitavam as alucinações de Cristiane. Gustavo sorriu ao vê-las. Um sorriso forçado que tentava esconder a todo o custo a surpresa com tudo que ele acabara de saber.

– Aconteceu alguma coisa? – Gisele perguntou. – Vocês estão tão quietos.

– Não foi nada. – Vítor se apressou a responder. – Gustavo tava só me contando sobre o caso de um paciente dele.

– Ah! Chega de falar de trabalho! – Cristiane disse animadamente. – Não dá pra aproveitar o fim de semana.

E foi o que fizeram, o resto do dia foi perfeito. Aproveitaram a piscina e a luz fraca do sol até que ele desse lugar à noite. Nada mais foi dito sobre o problema de Cristiane Ela parecia e se sentia perfeitamente bem.

Gustavo e Gisele saíram bem tarde de lá, apesar da insistência de Cristiane para que eles ficassem.

* * *

O domingo se seguiu da mesma maneira. Eles saíram para almoçar e foram ao cinema de noite. Cristiane queria voltar cedo para casa. No dia seguinte ela voltaria ao trabalho, queria estar descansada para voltar a ativa.

Estava tomando de volta as rédeas de sua vida. Foi o que ela pensou até a madrugada.

Cristiane se levantou e foi até a cozinha pegar um copo de água. Abriu a geladeira ainda sonolenta e olhou para dentro dela procurando uma garrafa gelada. Ouviu algo se mover atrás dela. Olhou sobre os ombros pra cima da pia da cozinha e não viu nada. Não deveria ser nada mesmo. Voltou para a geladeira e alcançou uma garrafa grande de vidro e se virou para apanhar um copo.

Enquanto enchia o copo com água ouviu novamente um som. Dessa vez um barulho mais familiar. Baixo e longe, muito diferente da última vez em que o ouviu. O guincho como garras arranhando uma superfície lisa. Sentiu um frio percorrer toda a extensão das suas costas.

Debruçou-se sobre a bancada e aproximou o ouvido do ralo para ouvir melhor e ter certeza de que não estava ouvindo coisas que não estavam lá. Foi então que o guincho agudo, alto e insuportável voltou. Seguido de diversas batidas na parede que fizeram o mármore tremer.

O único barulho que Vítor ouviu do andar de cima foi o grito de sua esposa e o barulho de vidro sendo despedaçado. Ele desceu correndo no escuro quase caindo da escada e batendo na mesa da sala. Chegando à porta da cozinha, não conseguiu entrar logo. Ficou paralisado pela cena.

Cristiane tinha as mãos sangrando. O sangue se espalhou  por cima da pia com a água da garrafa que brada. Mesmo com as mãos assim, ela tentava enfiar cacos de vidro pelo ralo da pia enquanto gritava:

– Eu matei você! Eu matei!

Antes que Vítor pudesse fazer alguma coisa sobre isso, Cristiane alcançou um copo e sem titubear o acertou na pia. Produzindo mais cacos de vidro. Alguns desciam ralo abaixo, outros entravam na sua pele no processo.

Passado o choque inicial, Vítor se atirou sobre ela e conseguiu afastá-la da pia. Segurou seus braços para que ela parasse de tentar quebrar mais coisas e a levantou do chão para conseguir que ela saísse de lá. Cristiane ainda não havia parado de gritar.

Chorava compulsivamente. Vítor a colocou no sofá para tentar fazê-la se acalmar. Com muito sacrifício e conversa ele a levou para cima. Tentou levá-la até o banheiro para limpar os machucados e tentar tirar os cacos de vidro, mas ela não entrava no banheiro de maneira nenhuma. Ele entrou diversas vezes sozinho antes dela conseguir acompanhá-lo.

Vítor lavou os ferimentos e tirou todos os cacos de vidro com uma pinça de sobrancelhas. Usou gaze e esparadrapos para fazer um curativo o melhor que podia já que ela se recusava à ir ao hospital tomar pontos. Pelo menos os cortes não foram profundos. Eles eram mais espantosos em quantidade.

Cristiane agora estava sentada em sua cama. Um olhar triste fixado em algum ponto do chão. Um misto de vergonha e frustração era o que ela sentia. Vítor estava sentado no chão com os braços apoiados nas pernas dela. Sem que ele perguntasse, ela confessou.

Disse tudo que estava ouvindo nos últimos dias pela casa e como aquilo a estava enlouquecendo. Falou que acontecia desde seu acidente com a escada na cozinha. Contou como achava que tudo aquilo havia acabado quando na sexta feira ela pensou ter matado o que quer que viva ali. Omitiu a parte onde ela viu algo que poderia ser o sangue da criatura escorrendo do arame. A simples menção desse fato embrulhava se estômago novamente.

Ficou em silêncio então. Vítor olhava seu rosto e tentava achar as palavras certas para começar a falar. Infelizmente, tais palavras não existiam. Pegou suas mãos muito machucadas entre as suas. Tinha medo de acabar a ferindo mais, mas precisava mostrar algum conforto a ela.

– Você poderia ter me contado sobre isso antes.

– Eu sei. – Ela sufocou um pequeno suspiro que a faria começar a chorar. – Me desculpa…

– Desde quando isso vem acontecendo? – Victor usava as mesmas palavras que usava com seus pacientes. Não sabia como agir de outra maneira vendo sua esposa assim.

– Desde que eu caí na cozinha.

Ele assentiu com um ar derrotado. Como não havia percebido antes?

– Há quanto tempo você não toma o remédio?

Cristiane se levantou da cama puxando as mãos sem se preocupar em quanto aquilo doeu. Havia perdido todo seu ar perdido e desolado. Agora ela estava com raiva.

– Eu não parei meu remédio! É por isso que eu sei que eu não estou vendo coisas!

Vítor se levantou e tomou as mãos dela nas dele.

– Cris, eu sei que pode ser chato de vez em quando. Mas não há problema nenhum nesses remédios.

– Eu não estou mentindo! Eu não acredito que você está duvidando de mim.

– Eu não estou, meu amor!

– Mas acha que eu larguei os remédios não acha?

Vítor simplesmente abaixou a cabeça. Cristiane estava transtornada com aquilo. Como seu marido podia duvidar dela dessa maneira?

– Cris, eu vi que você não está mais tomando os remédios. – Ele disse com pesar.

– Como assim? – Levantava a voz cada vez mais perdendo a razão.

Andou batendo os pés com força até a mesa de cabeceira e abriu a gaveta. Parecia que vários alfinetes espetavam os cortes quando ela fez isso. Puxou o frasco cilíndrico dos seus comprimidos e os entendeu para ele sem mesmo olhar.

– Como você explica que eles já estão acabando?

Os olhos de Victor estavam mais tristes ainda. Ele andou até ela e pegou o frasco e levantou até a altura dos olhos dela. O vidro estava cheio. Cristiane arregalou os olhos não acreditando no que via. Ela lembrava claramente de ter tomado o remédio todos os dias anteriores. Como o frasco estava cheio? Como?

Victor não conseguia desviar os olhos da expressão de surpresa nos olhos de Cristiane. Sem saber o que fazer ele começou a chorar e a abraçou.

– Eu devia ter percebido. Devia ter cuidado de você.

Cristiane continuava olhando para lugar nenhum com os olhos vazios.

– Você me perdoa? – Victor perguntava quase soluçando.

Cristiane apenas assentiu com a cabeça. Victor a beijou e a ajudou a se sentar novamente na cama. Ele pôs dois comprimidos na palma da mão e os entregou para ela que os engoliu, mais uma vez, sem água.

Em pouco tempo, ela estava vagando entre o sono e a quase consciência. Em algum momento, ainda nesse estado, Cristiane viu o marido se levantar e pegar algo embaixo da cama. No escuro, ela não podia ver o que era. Mas quando ele se aproximou da mesa de cabeceira para guardar o que quer que fosse no bolso do paletó jogado sobre ela, Cristiane viu algo que lhe parecia familiar. Era um frasco de remédio como qualquer outro que ela já havia tomado. Mas como ele estaria na mão dele se o frasco cheio estava sobre a mesinha? Isso não tinha importância. Afinal, ela estava pegando no sono. Poderia muito bem estar vendo coisas. E talvez até ouvindo coisas. Algo como um suave arrastar. Ou então pancadas tão longe que mal eram ouvidas. Ela poderia muito bem estar sonhando, não poderia?

Em breve, parte 5



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5 Respostas para
     “O que se move dentro das paredes (parte 4)”

  • Tânia Souza disse: 25 de junho de 2010

    Sue Lorena, vá já terminar esse conto, quero saber logooooo

  • Luiz Poleto disse: 25 de junho de 2010

    Essa parte ficou muito legal. Esclareceu algumas coisas mas ainda consegue prender a atenção esperando a próxima parte!

  • Flávio de Souza disse: 25 de junho de 2010

    Não! Quando eu achava que tudo era realidade, as incertezas voltam com força total!?! As perguntas continuam e o mistério aumenta…Seria a criatura tão palpável como as cobras do buraco? Seria ela delirante como as lagartas da mente? Vou ali pegar um remedinho para me auxiliar hehehehehehehe…

  • Déia Tuam disse: 25 de junho de 2010

    MMMMMMMMMMMMMMEDO.

  • Susana Lorena disse: 25 de junho de 2010

    Geeeeente to adorando os comentários de vocês!
    Que bom que todos estão gostando da história! Me anima a acabar ela o mais rápido possível!

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