O que se move dentro das paredes (parte 3)

Publicação: 21 de junho de 2010

Nada melhorou para ela nas semanas seguintes. As vezes em que Cristiane dormia uma noite inteira se tornaram raras. E cada vez mais necessárias. Quando a casa estava em silêncio, ela podia ouvir cada movimento da criatura. Seu arrastar pegajoso, as batidas nas paredes e os ocasionais guinchos. Esses eram cada vez mais parecidos com os que ela ouvira em seus pesadelos. Começaram muito baixos, quase imperceptíveis. Depois de pouco tempo, já eram altos o suficiente para fazê-la acordar nas poucas vezes em que pegava no sono.

Quando Vítor estava em casa, tudo permanecia quieto. Parecia que a criatura tinha uma preferência em particular por ela. Já que ele não ouvia, Cristiane também não falava sobre isso. Não queria parecer louca. Então mantinha as aparências. Escondida, passou a fazer de tudo para resolver esse problema. Começou perguntando aos vizinhos se os antigos moradores da casa tiveram algum tipo de “problemas com o encanamento”. Recebia sempre respostas negativas e desconversava quando alguém se oferecia para dar uma olhada no que estava errado. Pelo que parecia, aquele era um problema que ela deveria resolver sozinha.

Nesse período de noites insones, desenvolveu o costume de dormir por uma ou duas horas nas espreguiçadeiras na beira da piscina. O barulho da criatura e sua presença constante se fazendo perceber não a atingiam no jardim. Esses momento passaram a ser sua única fonte de descanso. A maquiagem que aplicava todas as manhãs antes de ir para o trabalho, já não escondia suas olheiras profundas e a palidez da sua pele.

Gisele perguntava incessantemente pela sua saúde e se tudo estava bem em casa. Cristiane mentia dizendo que estava tendo muito trabalho para conseguir arrumar tudo em casa e se acostumar com a nova vizinhança. Não sabia por mais quanto tempo conseguiria se safar com essa desculpa.

Victor queria fazer uma série de exames nela. Para ter certeza de que ela não estava ficando doente. Era mais difícil se esconder dele com a maquiagem. Recusava todas às vezes dizendo que estava assim, pois estava cheia de trabalho no consultório e achava que teria que despedir uma das dentistas, e ela não gostava de fazer isso.

Cristiane não aguentava mais estar perdendo espaço na sua casa para uma coisa que não deveria estar lá. Algo que ela nem mesmo vira, mas percebia sua presença a cada momento dentro de casa.

Numa sexta feira, decidiu que acabaria com isso. Esperou Vítor sair de casa e ligou para Gisele dizendo que não iria ao trabalho, pois havia pegado uma gripe muito forte. Fingiu uma tosse e nariz congestionado ao telefone. Acatou todas as recomendações de Gisele e desligou. Saiu de casa logo em seguida. Levou o carro, iria as compras.

Foi a uma série estabelecimentos perguntando onde poderia encontrar soda cáustica. Quando encontrou, comprou cinco galões sob o olhar desconfiado do atendente. Foi até o super mercado mais próximo da sua casa. Comprou varias garrafas de álcool comercial, uma lanterna, e um rolo de arame grosso.  Colocou tudo no porta malas do carro e correu para casa. Tirou tudo do carro e distribuiu as compras entre os andares da casa. Vestiu um short Jeans e colocou uma camisa de malha muito larga amarrada nas costas com um nó. Prendeu o cabelo no alto com um coque. Foi até a sala e ligou o aparelho de som. Colocou um dos CD’s de rock de Vítor no volume máximo e se preparou para sua batalha pessoal.

Com a ajuda da lanterna, olhou para dentro do ralo da cozinha. Conseguiu ver algo que a perturbou bastante. Uma pele escamosa e úmida. Se mexia ritmadamente como se respirasse. Era aquilo que devia atingir. Desenrolou o arame, dobrou a ponta para formar um gancho e o deslizou para dentro do ralo com facilidade até atingir uma superfície mole. Cristiane podia sentir a ponta do arama apertando aquela pele gosmenta, essa sensação lhe embrulhou o estômago. Respirou fundo e continuou com seu plano. Puxou o arame para cima e, com um movimento seco, o desceu de volta. Antes de ceder, a pele ofereceu pouca resistência. Um guincho saiu do ralo. Era possível ouvi-lo apesar da música. Não pode se permitir se incomodar com o barulho que aquilo fazia. Repetiu o movimento uma série de vezes. A cada vez, empurrava o arame mais para dentro da tubulação, cada vez mais acompanhado dos guinchos incessantes. Os guinchos não pararam.

Quando finalmente puxou o arame, foi preciso um pouco mais de força. Ele prendia em algumas coisas que precisavam ser arrebentadas antes de puxar mais. Cristiane não queria pensar no que estava arrebentando, era mais fácil assim. E quanto maior o dano que fizesse, melhor. A partir de certo ponto, o arame gotejava uma substância espessa e muito escura. Sem pensar no que estava fazendo abriu o galão de soda cáustica e o virou dentro da pia.

Apesar da música alta, o grito da criatura foi algo insuportável. Cristiane nunca havia ouvido nada igual. Se assemelhava a milhares de unhas sendo arranhadas em quadros.  As pancadas nas paredes voltaram mais forte e agora pareciam se estender por toda a casa. Podia jurar que quando isso tudo acabasse, todas as molduras penduradas nas paredes com fotos do casal, estariam estilhaçadas no chão. Teve que lutar contra o impulso de cobrir os ouvidos. Permaneceu com o galão virado sobre a pia até que ele estivesse acabado. Quando todo o conteúdo desceu pelo ralo, e ela esperava que aqueles guinchos horríveis fossem devido à queimaduras, abriu duas garrafas de álcool e deu à elas o mesmo destino da soda caustica.

A criatura se movia tão violentamente, que o mármore da pia trepidava. As batidas nas paredes faziam parecer que os azulejos iriam cair. Cristiane repetiu o mesmo procedimento, arame, soda e álcool, no ralo da área de serviço. Subiu para o andar de cima e fez o mesmo na pia do banheiro, vaso sanitário, e ralo do Box.

Os guinchos e gritos fizeram o que parecia ser impossível. Ficaram mais agudos e mais insuportáveis a cada lugar novo atingido. Isso não impediu que ela continuasse.

Cristiane saiu da casa pela porta de vidro que dava para o jardim. Sentia-se vitoriosa e cansada. Subiu na beira da piscina e deixou o corpo cair para frente. A sensação era ótima. Deu duas voltas nela, não era muito fácil usando jeans e camiseta. Secou-se ao sol deitada em uma espreguiçadeira.  Acabou pegando no sono. Um sono tranquilo, sem pesadelos. Quando acordou, o rock ainda espancava as caixas de som e fazia as janelas tremerem.

Entrou na casa e desligou o aparelho de som. Um estranho silencia invadiu o lugar. Era como se resquícios da música ainda pudessem ser percebidos pelo ar. Como se o som fizesse as bordas dos objetos ainda vibrarem.  Mas esse era o único som perceptível. Nada batendo nas paredes ou se arrastando pelos canos.

Caminhou pela casa apreciando o silêncio, tomando posse de sua casa mais uma vez. A casa que era dela e ela conquistou de volta.

O resto do dia se tratou dela. Já era mais de duas horas quando tudo acabou e ela ainda não havia almoçado. Pediu uma pizza que comeu na cama assistindo TV. Tomou um banho quente e demorado e, merecidamente dormiu.

Dormiu até anoitecer e Vítor voltar para casa. Encontrou uma Cristiane totalmente diferente da que deixou de manhã. Ela estava disposta e bem humorada.

– Vamos chamar Gisele e Gustavo para jantar amanhã.

– Boa idéia. – Vítor concordou – Podemos fazer um churrasco mais tarde e aproveitar que tem feito noites muito bonitas.

– É verdade. Nós também deveríamos aproveitar a noite.

Pela segunda vez no dia, Cristiane pulou na piscina de roupa. Dessa vez acompanhada de Vítor.

Em breve, parte 4



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2 Respostas para
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  • Flávio de Souza disse: 21 de junho de 2010

    Hum…então a criatura não era fruto da imaginação (loucura?)…entretanto, não acredito que ela possa ser vencida tão facilmente…

  • Déia Tuam disse: 21 de junho de 2010

    A considerar a mente de Susana Lorena, a criatura não era produto da imaginação da Cristiane. A Cristiane deve ser produto da imaginação da criatura!
    E quando a Cristiane colocou o cd de rock do Victor, tive que ligar Rammstein. Pobre criatura que se move dentro das paredes!

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