O que se move dentro das paredes (Parte 1)

Publicação: 17 de junho de 2010

Era a casa perfeita para o casal sem filhos. Começaram cada um, a ganhar melhor em seus empregos e decidiram que estava na hora de juntar as economias acumuladas nos cinco anos de casados e finalmente
comprar a própria casa. A procura demorou consideravelmente. Tinham que
encontrar uma casa ótima para eles. Passaram por uma série de casas nos mais
variados níveis de deterioração e má conservação. Até que encontraram A Casa.

Esta ficava em um condomínio fechado. Não aqueles onde todas as casas parecem blocos de concreto iguais. Mas um onde cada um tinha um estilo diferente, um tamanho diferente e,
consequentemente, um preço diferente. A deles se encontrava entre uma das mais
caras.

Dois andares, uma fachada em granito, varanda, o quintal cercava toda a casa com uma grama tão verde que parecia pintada. Para não estragar a grama, também cercava a casa, um caminho de pedras cinza, da
mesma cor da fachada da casa. No quintal dos fundos havia uma piscina e uma
churrasqueira de alvenaria. Já imaginavam os churrascos a beira da piscina
durante o verão. Depois de fechar o contrato de compra da casa, em menos de um
mês eles já haviam se mudado. Com direito a uma festa para a inauguração da
casa. O churrasco teve que esperar, já que se mudaram no meio do outono e já esfriava.
Mesmo assim a piscina fez sua parte na decoração, coberta de bolas de encher.
Todos os amigos e família do casal compareceram na apresentação da nova casa. Colheram
muitos elogios naquela noite. E cheios de orgulho, até observaram a
demonstração de inveja de alguns amigos que não eram tão amigos assim.

– Precisa de algumas reformas, não? – Uma velha amiga dos tempos da faculdade alfinetou. Cristiane apenas sorriu e foi a mais educada possível.

– Toda casa precisa. Nós vamos começar a reforma assim que terminarmos de colocar tudo no lugar.

A mulher assentiu olhando à sua volta o quintal em perfeitas condições. Cristiane olhou em volta a procura do marido. Quando seus olhos se cruzaram, ela ergueu o dedo indicador sem que sua amiga visse. Aquele sinal
combinado entre eles significava que mais uma pessoa havia falado algo de ruim
sobre a casa, demonstrando inveja.

Victor ergueu os dois polegares em sinal de aprovação. Apenas um amigo havia feito algum comentário do gênero. E ele apenas disse que a conta de água seria muito alta para manter aquele jardim assim tão
bonito. Cristiane já contava cinco comentários. As mulheres podem ser malvadas
quando querem.

Após o último convidado sair e Victor se despedir dele na porta, voltou para os fundos da casa com uma garrafa pequena de cerveja nas mãos. Cristina estava sentada na beirada de mármore que cercava a piscina.
Havia tirado os sapatos e mexia os dedos dos pés na grama. Ele estendeu a
garrafa para ela que aceitou e se sentou ao seu lado.

– Já foram todos? – Cristiane perguntou antes de tomar de uma vez todo o conteúdo restante na garrafa.

– Já. – Victor respondeu no mesmo tom cansado que ela.

– Que bom. – E deitou a cabeça sobre o ombro dele.

Victor respirou fundo e olhou para o quintal espaçoso e escuro.

– É verdade, nós temos uma bela casa. – Cristiane apenas acenou com a cabeça sem se levantar. – Ei, você está muito cansada? – Acenou novamente.

Ele suspirou.

– É uma pena.

Levantou-se de onde estava e virou-se para a esposa sonolenta. Estendeu a mão para ajudá-la a se levantar. Assim que estava de pé, ele a ergueu do chão sobre os ombros ela ria e tentava descer. Como ele
era mais forte, logo ele pulava carregando-a junto, para dentro da piscina.

* * *

Em pouco tempo tiveram que entrar novamente na rotina do trabalho.

Cristiane, uma dentista com um consultório próprio, acabara de ampliar seu negócio e agora era chefe de mais duas outras dentistas. Ambas mais novas e formadas há menos tempo que ela. Podia então
fazer com que seu consultório atendesse bem mais pacientes.

Victor, cirurgião pediatra, não tinha um consultório próprio. Mas acabara de ser promovido a chefe de seu setor e passara a ganhar bem mais por isso. Era reconhecido no hospital, principalmente
por seus pacientes mirins por não tentar manter distância deles. Muito pelo
contrário, brincava com as crianças e era adorado por todos os pacientes do
hospital.

Durante o tempo em que a casa ainda estivesse desarrumada e com coisas para resolver, Cristiane voltava mais cedo para casa. Depois do trabalho organizava o novo cantinho do casal. O que pareceria um
trabalho muito grande era um alívio. Ela se desligava completamente do dia que
tivera enquanto arrumava o novo pedacinho da vida deles.

O quarto já estava arrumado e devidamente decorado, ela então resolveu passar para a cozinha. Foi lá que a primeira coisa deu errado.

Cristiane estava perigosamente equilibrada com um pé em uma cadeira e o outro sobre a pia para conseguir. Ela se esticava para alcançar a parte de cima do armário, quando ouviu um barulho. Algo como uma
batida na parede, mas parecia vir de dentro. “Água nos canos”, pensou e se
esticou mais um pouco. O seu pé sobre a cadeira já estava na ponta quando ouviu
o barulho de novo se dar muita atenção àquilo ela olhou com o canto dos olhos
para a pia e viu algo que a assustou. Não viu muito bem o que era porque a sua
primeira impressão foi suficiente para a assustar a ponto de perder o
equilíbrio.

Parecia uma lagarta preta saindo do ralo. Se arrastava preguiçosamente para fora de sua toca. Cristiane soltou um grito fino e recolheu os braços. Perdeu o equilíbrio delicado em que se encontrava Seu
outro pé deslizou para fora da cadeira e, por um breve momento, Cristiane
estava suspensa no ar sem saber se preocupava mais com a sua queda ou com o
bicho que saía do ralo.

Em poucos segundos nenhum dos dois foi motivo para preocupação. Na queda, bateu com a cabeça e perdeu a consciência por um tempo. Não sabia ao certo quanto. Sabia que quando acordou, sua cabeça doía e a
cadeira estava caída sobre suas pernas. Ficou um tempo parada piscando até que
tudo parasse de girar e se lembrasse com havia ido parar ali. Essa breve
amnésia não durou muito. Logo se lembrou do inseto gigante e se levantou as
pressas. Uma vez de pé, foi preciso se apoiar sobre a pia para não cair,
parecia que todo o cômodo girava sobre seus pés e uma dor aguda atravessou seu
tornozelo direito.

Mesmo com dor e tonta, cuidadosamente se inclinou para perto para verificar se o pequeno monstro estava lá. Nem sinal dele. Aquilo significava duas coisas: Ou ele havia voltado para dentro do ralo, ou estava
vagando pela cozinha. Com medo da segunda opção, Cristiane saiu cambaleando de
lá.

No quarto, pegou um fraco de remédios para dor e engoliu duas pílulas a seco sentada na beirada da cama. Com uma das mãos, sentiu o ponto atrás da cabeça onde latejava por causa da pancada. Pensando que
não conseguiria dormir com aquela dor, tomou mais dois comprimidos e deitou.

Sabia que não devia dormir. Mas estava cansada, sentia dor e havia tomado analgésicos demais. Não demorou a pegar no sono Logo estava sonhando com o morador de dentro da pia da cozinha. Como nos sonhos tudo
tem a tendência de parecer pior, ele agora tinha espinhos e uma boca com dentes
afiados. Seu corpo segmentado era oleoso e suas inúmeras patas faziam um
batucar ininterrupto contra o metal da pia. Cristiane estava na cozinha,
paralisada de medo, enquanto a coisa se aproximava dela.

A sensação de algo caminhando suavemente sobre seu braço, fez com que ela acordasse em um salto sufocando um grito na garganta. Victor havia voltado do trabalho e tentava acordá-la.

– O que aconteceu? Você está bem? – Como em um reflexo natural à todos os médicos ele levou uma das mãos a testa dela a fim de verificar sua temperatura.

Sua pele estava fria e pegajosa do suor de medo. Cristiane contou a ele o que havia acontecido na cozinha. Ele Se prontificou a procurar pela “fera” por toda a cozinha, se Cristiane concordasse em
acompanhá-lo até o hospital para checar a cabeça e, provavelmente, enfaixar o
tornozelo que agora estava inchado.

Enquanto ele vasculhava todos os cantos da cozinha, Cristiane se arrumava devagar no quarto para que eles fossem ao médico. Logo ele subiu as escadas.

– Não encontrei nada. – Anunciou ele da porta do quarto enquanto ela calçava sandálias já que o estado do seu pé tornava impossível o uso de tênis. – Ele deve ter voltado pelo mesmo lugar de onde
saiu.

Na volta do médico, onde souberam que tudo estava bem com ela, os dois se permitiram rir da situação. Ambos achando graça, ela ainda com uma pontada de vergonha por ter ido parar no hospital por causa de
uma lagarta dentro da pia. Parecia uma piada que ela quase tivesse se ferido
mais gravemente por causa disso.

– Nós nos esquecemos de outra coisa muito importante na casa. – Victor falava ainda rindo. – Uma escada. O que diabos deu em você pra fazer equilibrismo na cozinha?

Cristiane deu de ombros e continuou rindo.

Naquela noite, antes de dormir, Victor pegou na mesa de cabeceira um frasco de remédios diferentes do que Cristiane havia tomado mais cedo.

– Você vai dormir melhor se tomá-lo não acha?

Cristiane estendeu a mão e assentiu. Victor colocou um comprimido na palma da mão dela que o engoliu sem precisar de água. Passara boa parte da vida tomando aquele remédio, já estava acostumada.

Victor a beijou na testa antes de ocupar o seu lado da cama. Cristiane dormiu melhor dessa vez sem sonhar com nenhum monstro habitando a mesma casa que ela.



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4 Respostas para
     “O que se move dentro das paredes (Parte 1)”

  • Luiz Poleto disse: 17 de junho de 2010

    Sue, o conto está muito bom. Gosto muito do seu estilo despretencioso e de prosa cotidiana.
    A história está interessante e dando vontade de uma segunda parte logo! Estamos no aguardo! :)

  • Tweets that mention O que se move dentro das paredes (Parte 1) | far away -- Topsy.com disse: 17 de junho de 2010

    […] This post was mentioned on Twitter by Rober Pinheiro, Conselho SteamPunk. Conselho SteamPunk said: RT @aolimiar: "O que se move dentro das paredes (Parte 1)" – por Susana Lorena, em seu livro virtual – http://bit.ly/c6NbYj […]

  • Flávio de Souza disse: 17 de junho de 2010

    Olá Susana! De cara já gostei! O ambiente atual, no qual o texto se desenrola, agrada bastante por sair um pouco do cenário de casas corroídas pelo tempo, onde normalmente se situam as histórias sombrias. Não que casas sinistras sejam ruins, muito pelo contrário, mas eu acho que o aspecto moderno deixa tudo, digamos, mais visível. O mistério que você utiliza funcionou muito bem, a curiosidade sobre a próxima parte é grande.
    Muito bom!

  • Déia Tuam disse: 17 de junho de 2010

    Susana Lorena!
    Estou começando a leitura!
    Nós, seus leitores fiéis, somos apresentados ao casal Cristiane e Victor, somos guiados cinematograficamente em cada canto desta casa!
    E foi maravilhoso ver o Victor caindo na piscina com a Cristiane, depois de um longo e cansativo dia de open house.
    Obrigada, Sue, por abrir mais uma porta pra nós, leitores!

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