O que se move dentro das paredes (parte 2)

Publicação: 18 de junho de 2010

Na manhã seguinte ele saiu para o trabalho e ela ligou avisando que tiraria a manhã de folga para terminar de se recuperar do dia anterior. Gisele, sua secretária e amiga perguntou se ela estava bem.
Cristiane passou alguns momentos explicando o que havia acontecido e o resto do
tempo convencendo ela de que ela estava sim, bem o suficiente para já voltar ao
trabalho.

Victor ria enquanto ouvia a esposa ao telefone. Gisele não era apenas a secretária dela. Era sua amiga mais preocupada.

Depois de quase meia hora ao telefone, finalmente missão cumprida.

– Sem fazer bagunça na cozinha hoje! – Victor disse enquanto se despedia dela.

Logo que ouviu a porta bater no andar de baixo, se levantou da cama. Queria dar outra olhada na cozinha. Desceu as escadas com cautela se apoiando no corrimão.

Cristiane se aproximou da pia, uma leve espiada dentro dela revelou o que ela esperava. Absolutamente nada. Não podia deixar de rir de si mesma. Talvez a pancada tivesse sido um pouco mais forte do que todos
imaginavam. Virou-se e decidiu voltar para a cama, de onde não deveria ter saído.

Ao dar as costas, algo chamou sua atenção de volta à cozinha. Um barulho alto que se repetiu mais duas vezes antes que pudesse olhar. Para seus ouvidos pareciam socos vindos de dentro das paredes. Desferidos por algo muito forte, já que junto
com as pancadas ela podia ouvir o fraco tilintar das louças batendo dentro dos
armários.

Olhou de volta no momento em que o som parou. Tudo parecia normal. Cristiane abanou a cabeça negativamente. Estava ficando louca. Detestava o som dessa palavra. Subiu e se acomodou na cama com o tornozelo
inchado sobre uma pilha de almofadas. Ao esticar-se para pegar o controle da
televisão, viu sobre a mesa de cabeceira o pequeno frasco de comprimidos que
seu marido queria que ela tomasse na noite anterior. Poderia tomar um agora,
mas preferiu não. Algo dizia a ela para esperar um pouco mais. Simplesmente
pegou o controle.

Ligou a TV e a deixou em um canal com um programa de culinária. Caiu no sono antes mesmo da primeira receita. O mesmo sonho da noite anterior veio a assombrar.

Dessa vez o animal parecia se alongar infinitamente por dentro dos canos. O som de suas patas a irritava profundamente. Em certo ponto de sua marcha para fora do ralo, ele parou. Não
por vontade própria. As patas curvadas continuavam se movendo como que para frente,
mas o animal não prosseguia. Parecia que, em algum ponto de seu longo corpo,
ele ficou grande demais para o encanamento. O animal seguia furioso na sua
tentativa de continuar em frente.

O horror que ela sentia, crescia cada vez mais. E mais a paralisava. Apenas uma coisa fez com que ela se libertasse. Ela ouviu um barulho baixo que foi crescendo como se viesse rolando de longe até explodir em
seus ouvidos. Um guincho agudo e rasgado fez com que ela, instintivamente,
levasse as mãos aos ouvidos. Mas isso não adiantava. Era como se o barulho cavasse
um buraco para dentro de sua cabeça. O guincho foi ficado mais baixo até que se
reduziu a um gorgolejar molhado que lhe embrulhou o estômago.

Foi nesse momento que ela acordou. Suas duas mãos agarravam o lençol e o esticavam até que ele quase rasgasse. Sentia seus dentes trincando.

Ao abrir os olhos viu na TV a mulher mexendo uma panela de algo que, em outra hora, poderia parecer apetitoso. Mas naquele momento era apenas pegajoso e disforme, e o enjôo que sentiu ao ouvir o último
som do monstro na pia de sua cozinha voltou. Cristiana se virou na cama e
correu para o banheiro da suíte do casal.

Ela se ajoelhou em frente ao vaso sanitário e despejou todo o conteúdo de seu estômago em uma sensação tão violenta de náusea, que só lembrou-se de seu tornozelo quando já havia acabado. Arrependeu-se
da corrida até ali imediatamente.

Ficou um tempo sentada ali no chão. A sensação fria dos azulejos era boa, ela parecia aliviar o enjôo. Cristiane pôs as palmas das mãos também no chão para sentir mais um pouco do frio. Ela se sentia
melhorar aos poucos.

Ainda no chão ela começou a tirar a blusa, precisava de um banho. O suor frio do enjôo grudava fios de cabelos na sua testa e ela se sentia doente.

Ficou quase uma hora sob a água gelada do chuveiro deixando que ela caísse sobre sua cabeça. Lavou os cabelos com cuidado, pois a pancada da noite anterior havia deixado um galo bem evidente e dolorido.

Vestiu-se no quarto. Colocou uma saia para ir trabalhar. Não gostava muito, mas também não conseguia se imaginar dobrando o pé dolorido e inchado para passá-lo pela perna de uma calça. Enquanto se
maquiava no espelho, admirou os benefícios de um bom banho frio. Ninguém
poderia dizer que aquela mulher completamente revigorada, estava saindo de uma
crise de enjôo, uma queda e pesadelos horríveis durante dois dias seguidos.

Não havia pensado nisso antes, mas estava talvez passando por um breve período de azar. Azar. Pensando nisso ela olhou par o pequena frasco de comprimidos na cabeceira da cama.

– É isso mesmo. Azar.

Antes de sair do quarto ela tomou a sua dose de remédios. Desceu as escadas com certa dificuldade. Seguiu em direção à porta. Ao passar pela cozinha, sentiu o enjôo voltar. Não poderia nem pensar em almoçar
ali. Assim que estava fora de casa, ligou para Gisele.

– Você me espera para almoçar?

– Mas é claro! – dizia Gisele naquela voz alta e alegre que fazia tudo parecer sem importância.

– Chego logo, pode me esperar no saguão do prédio que a gente vai de carro.

– Ok!

Dirigir até lá não deixou de ser um pouco torturante. O pé machucava, mas ela não queria ir de taxi. Dirigir era uma boa terapia, era relaxante.

Parando em frente ao prédio onde estava instalado o consultório, Cristiane buzinou duas vezes. De lá de dentro saiu Gisele em seu bom humor habitual. Era o antídoto certo para os ocasionais desânimos de
Cristiane.

Conheceram-se no primeiro consultório que Cristiane trabalhou. As duas novas no trabalho identificaram uma na outra alguém que entendia pelo que estavam passando. Cristiane saiu do consultório
sem nunca perder contato com Gisele. Dizia que se um dia abrisse um consultório
sozinha, Gisele ia ajudá-la a conduzi-lo. E esse sempre fora o plano. Assim que
esse sonho foi realizado, Gisele foi trazida para dentro do consultório antes
mesmo dos aparelhos e mobília da sala de espera.

Ela era uma das poucas pessoas que sabiam absolutamente tudo sobre Cristiane. Tudo que havia para saber. Além da cozinha lhe dando enjôo, esse foi um dos motivos para o almoço.

Contou tudo o que havia acontecido nos últimos dias. Gisele ouviu tudo com uma expressão séria, preocupada. Sabia dos problemas da amiga e qualquer mudança no comportamento dela a incomodava.

– Cris… – Gisele respirou fundo, achando difícil isso que ia falar. – Posso te fazer uma pergunta?

– Claro, – Cristiane sorriu sem olhar para ela, mexia desinteressada em algo no seu prato. – apesar de que eu sei o que você vai perguntar.

Gisele sorriu um tanto embaraçada, mas não podia deixar isso passar:

– Você está tomando os remédios direito.

– Estou. – Disse Cristiane séria, olhando fundo nos olhos de Gisele para que ela tivesse certeza de que era verdade. – Prometo pra você que estou.

– Não precisa prometer. Eu acredito. – As duas sorriram.

Gisele entendia a amiga. Ela não precisava de uma série de possíveis explicações para o que estava acontecendo. Tudo que ela queria era alguém com quem ela pudesse falar. E foi isso que Gisele fez, ouviu
pacientemente. E logo depois, tratou de mudar estrategicamente a conversa para
um assunto mais leve a fim de animar Cristiane.

Foi isso que a ajudou a passar o dia. Não que Victor não ajudasse e entendesse o problema dela, mas nada era melhor do que uma amiga.

O dia passou tranquilo. Cristiane não quis voltar cedo para casa dessa vez, não quis voltar e tentar arrumar a casa, já tido muito trabalho por causa disso. Ela ficou no consultório até que a última ficha
de paciente tivesse sido colocada em ordem.

Gisele dirigiu na volta para casa, a levou até em casa e foi para a sua própria de taxi. Cristiane se sentia segura ao lado dela. Sempre podia contar com sua preocupação exagerada quando precisasse.

Cristiane respirou fundo antes de entrar em casa. Baixinho ela repetia para si mesma que nada estaria na cozinha. Mais precisamente na pia. Ao abrir a porta, ouviu um som vindo da cozinha, não os mesmos de mais cedo. Mas
um som bom. O Chiar da comida na panela e o marido cantarolando desafinadamente
uma música.

Naquela noite não houve nenhum problema quanto a coisas na pia e dentro das paredes da cozinha. Nada, apenas eles dois conversando durante o jantar. Cristiane estava começando a se convencer de que
os sons e coisas que ela havia visto eram frutos de sua mente cansada pela
mudança de casa.

Foi isso que ela pensou até à hora de dormir. Estava dormindo tranquila, nenhum pesadelo. Sem absolutamente sonho algum. Quando um barulho alto veio da cozinha. Parecia muito com as pancadas da manhã
só que muito mais fortes. E mais alguma coisa estava diferente.

Após a segunda pancada, o som não estava mais concentrado na cozinha. A origem do som mudava rapidamente de um lado para o outro da casa. Era como se a coisa dos encanamentos corresse por todo o andar
de baixo numa velocidade alarmante. Ou então…

Cristiane tentou sacudir a cabeça e afastar esse pensamento, mas era tarde de mais. Ele já estava enraizado e crescia. E se a criatura não estivesse correndo pelos canos? E se a criatura fosse tão grande
que ela pudesse se espalhar pelos canos de toda a casa?

Esse pensamento a fez congelar na posição. Seus olhos chegavam a brilhar de tão abertos que estavam. Ela não se movia com medo de que a menor vibração chamasse a atenção da criatura. Por mais de uma hora
ela ficou quieta na cama ouvindo os barulhos vindos do andar de baixo.

Durante um momento ela achou que tivesse parado. Estava quase respirando aliviada Quando o barulho voltou, mais frequente, subindo o caminho para o segundo andar. Cristiane pulou da cama com um grito.
Victor acordou imediatamente pulando também. Ele acendeu a luz e viu o rosto
pálido da esposa.

– O que aconteceu?

Cristiane ia falar a verdade. Desistiu. Não queria que ele pensasse que estava ficando louca. Decidiu falar algo próximo da verdade.

– Ouvi um barulho lá embaixo.

A expressão de Vítor mudou. De susto, ela passou a uma mistura de coragem e hesitação.

– Fica aqui em cima. Qualquer coisa chama a polícia.

Ele foi andando com cuidado para não fazer barulho. Cristiane estava muito cansada e assustada para achar aquilo engraçado. Ela sabia que o marido não estava correndo nenhum perigo de
encontrar um ladrão ou assassino no caminho pelas escadas. Pelo que ela sabia,
o que quer que estivesse fazendo o barulho estava dentro das paredes.

Vítor desceu as escadas sem acender as luzes, enquanto Cristiane ficou sentada na cama tentando se recuperar do susto e tentando voltar a ouvir o barulho que a fez pular. Nada… Nem um leve
murmurar, a não ser seu marido tentando ser silencioso, e falhando nisso. Logo
ele estava de volta.

– Você tem certeza de que ouviu algo?

– Tenho. – Cristiane mentiu. – Parecia alguém forçando a porta do andar de baixo.

– Eu não vi nada, amor. – Ele colocou uma das mãos sobre o ombro dela. – Nossa! Você está tremendo! Quer ir lá embaixo tomar uma água com açúcar?

– Não! – Ela disse um pouco exasperada demais e tentou consertar. – Eu estou com muito sono e amanhã a gente tem que acordar cedo. Ok?

– Ok. – Ele concordou com um sorriso sonolento e escorregou para o seu lado da cama.

Cristiane simplesmente não queria voltar à cozinha. Não agora. Ela deitou e tentou pegar no sono. Passou o resto do tempo se revirando até o dia amanhecer. Não dormiu nada aquela noite.

Na manhã seguinte antes de sair para o trabalho, carregou na maquiagem para não aparentar todo o sono que sentia.

Em breve, parte 3



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5 Respostas para
     “O que se move dentro das paredes (parte 2)”

  • Flávio de Souza disse: 18 de junho de 2010

    O mistério não só continuou em evidência, como aumentou. Acredito que, em breve, a protagonista enfrentará um dilema perante si mesma. As pílulas e a insegurança tornam seu perfil psicológico um desafio, não só para quem está de fora, mas para ela própria. Talvez o medo venha a desempenhar um importante papel na busca por equilíbrio. Será que ela vai enfrentá-lo, e por consequência a si própria? Isso, só você sabe…mas não tarde a nos contar…
    A curiosidade me corroi…

  • Tweets that mention O que anda dentro das paredes (parte 2) | far away -- Topsy.com disse: 18 de junho de 2010

    […] This post was mentioned on Twitter by Felipe Fantuzzi, Susana Lorena. Susana Lorena said: O que anda dentro das paredes – Parte 2 http://tinyurl.com/3xs6rpr (agora já no site novo) […]

  • Tânia Souza disse: 18 de junho de 2010

    Sueee, intrigante demais, sabe que nos deixa totalmente na dúvida é se a “coisa” é real, existe de fato? Ou existe apenas na mente? Estou super curiosa!!!

  • Luiz Poleto disse: 18 de junho de 2010

    A única coisa ruim da segunda parte é que ainda temos que esperar pela terceira.
    Continue assim, pois o suspense está aumentando e as perguntas se multiplicando.

  • Déia Tuam disse: 18 de junho de 2010

    Ahhh, agora vamos até o fim!

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